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LINGUAGEM NA CRIANÇA2020-05-11T20:30:02+00:00

Project Description

Linguagem na Criança

A aquisição da linguagem é uma das realizações mais notáveis dos primeiros anos de vida.

O desenvolvimento da linguagem é um processo muito complexo que implica pensar, construir frases, escolher as palavras, recorrer a símbolos para expressar o nosso pensamento, tudo numa fração de segundos, de modo a partilhar sentimentos, ideias, valores, factos e pensamentos. É um processo gradual, diferente e específico de cada criança, ainda que dentro de limites do esperado.

No desenvolvimento da linguagem, há diferenças individuais, tanto no processo de aquisição quanto na velocidade e qualidade. Assim, esse desenvolvimento é complexo e depende de uma série de fatores, que compreendem desde maturação neuropsicológica, afetividade, desenvolvimento cognitivo, até contextos nos quais a criança e/ou jovens estão inseridos. Inerente a este processo, encontra-se a necessidade humana de comunicar, enquanto ser social, servindo as competências linguísticas não só para compreender o meio envolvente e para regular o próprio pensamento e emoções, mas também como base para o estabelecimento de processos comunicativos mais elaborados.

A comunicação ocorre desde os primeiros tempos de vida, a um nível pré-linguístico, sendo esta fase de uma importância extrema para a vinculação, regulação e autodeterminação do bebé. A partir de um ano de idade a estreita relação entre competências comunicativas e linguísticas torna-se cada vez mais evidente, assumindo-se a linguagem como uma ferramenta essencial para suprir as necessidades comunicativas. Porém, importa realçar que se considera comunicação qualquer ato através do qual são transmitidas ou recebidas mensagens, que poderão ser verbais ou não verbais, orais ou não orais, intencionais ou não intencionais. Todas as pessoas comunicam, mas a eficácia do processo comunicativo depende quer de fatores individuais quer de fatores ambientais.

As alterações de linguagem poderão afetar um ou mais domínios linguísticos: fonológico, morfológico, sintático, semântico e/ou pragmático com elevado impacto na socialização, desempenho escolar e qualidade de vida das crianças, jovens e suas famílias. Podem apresentar-se quer na linguagem verbal oral quer na linguagem verbal escrita, comprometendo o processo comunicativo com maior ou menor impacto. As alterações da comunicação poderão existir como problemática principal ou secundariamente a outras condições desenvolvimentais, e do mesmo modo, influenciam também o desenvolvimento de competências linguísticas.

O Departamento de Linguagem na criança da SPTF é o responsável pela dinamização da evolução do conhecimento das perturbações da linguagem e da comunicação das crianças e jovens. É constituído por um grupo de profissionais que pretende promover o aumento da qualidade e quantidade de produção científica por parte dos pares e outros profissionais de áreas afins à terapia da fala, com o intuito de fomentar a reflexão, partilha e aprendizagem para um apoio mais eficaz a crianças e jovens com perturbações da Comunicação e da Linguagem e suas famílias, contribuindo para a adoção de práticas baseadas na evidência.

Teleterapia nas Perturbações da Linguagem na Criança

A teleprática está a ser usada na avaliação e intervenção de uma ampla variedade de perturbações, tais como a Perturbação do Espetro do Autismo (PEA), Perturbações dos Sons da Fala, Perturbações da Linguagem e Perturbações da Aprendizagem (ASHA, nd; Boisvert, Lang, Andrianopoulos & Boscardin, 2010; Cason, Behl & Ringwalt, 2012; Coufal, Parham, Jakubowitz, Howell & Reyes, 2018; J. Rudolph & S. Rudolph, 2015; Keck & Doarn, 2014; Manning, nd; McDuffie, 2016; Molini-Avejonas, Rondon-Melo, Amato & Samelli, 2015; Neely, Rispoli, Gerow, Hong & Hagan-Burke, 2017; Snodgrass et al., 2017; Sutherland, Trembath, & Roberts, 2018; Wales, Skinner, & Hayman, 2017).

O crescente corpo de pesquisa sobre o uso da teleprática para as perturbações da comunicação inclui muitos estudos que demonstram a comparabilidade da teleprática e da terapia presencial (ASHA, nd). Nesta comparação verifica-se que ambas promovem melhorias significativas em várias medidas de resultados, não havendo usualmente diferenças significativas entre os dois tipos de terapia. É, no entanto, necessária mais investigação (Coufal et al., 2018; Wales et al., 2017).

A maioria dos estudos demonstram elevados níveis de satisfação dos pais, embora com referência à preocupação com o tempo de atenção das crianças, o seu envolvimento nas atividades e com questões relacionadas com os recursos existentes (necessidade de tecnologia, capacidade para a usar, internet, etc.) (ASHA, nd; Crutchley & Campbell, 2010; Molini-Avejonas et al., 2015; Sutherland et al., 2018; Wales et al., 2017).

Como benefícios são muitas vezes apontados a redução/ausência de deslocações (reduzindo custos e ganhando tempo), a possibilidade de apoio a crianças e jovens que vivem em zonas rurais ou que se encontram mais isolados por diversos motivos, e a intervenção no contexto natural, encarando-se esta como uma possibilidade de contacto mais próximo com os pais/cuidadores, facilitando a colaboração e o seu envolvimento no processo de avaliação e intervenção (Manning, nd; Molini-Avejonas et al., 2015; Snodgrass et al., 2017; Sutherland et al., 2018).

As recomendações para a implementação desta modalidade de terapia alertam para a necessidade de atenção aos elementos ambientais do atendimento. Será importante assegurar determinadas condições, nomeadamente as relacionadas com o equipamento (câmara, acesso à internet, auscultadores, plataforma – e.g. zoom,…) e com o contexto (calmo, sem ruído, adequada luminosidade, sem distrações, confortável, seguro), sendo necessário acautelar eventuais contratempos. Todas estas condicionantes requerem especial atenção no atendimento a crianças. Será também importante planear e preparar o posicionamento dos participantes, bem como dos diversos materiais a serem usados nas sessões (ASHA, nd; Jarvis-Selinger, Chan, Payne, Plohman & Ho, 2008; Manning, nd; Snodgrass et al., 2017).

Neste sentido, será importante aqui salientar a necessidade de verificação da existência dos recursos necessários para que se possa implementar a teleprática, destacando-se o acesso à tecnologia, um contexto apropriado e ainda a capacidade para resolver problemas que possam ocorrer. No atendimento a crianças, estas deverão estar acompanhadas, garantindo que todos os aspectos mencionados relacionados, quer com a preparação das sessões, quer no desenvolvimento das mesmas, possam decorrer adequadamente (ASHA, nd; Snodgrass et al., 2017).

Um outro aspeto a considerar está relacionado com as características dos clientes que poderão beneficiar desta forma de atendimento. Como os serviços clínicos se baseiam nas necessidades exclusivas de cada cliente, a teleprática pode não ser apropriada em todas as circunstâncias ou a todos os clientes, o que deverá ser avaliado antes do apoio se iniciar. São vários os aspetos que poderão influenciar a adequação dos serviços fornecidos por esta via: características físicas e sensoriais da criança, características cognitivas, comportamentais e / ou motivacionais, de comunicação, nível de escolaridade, idade, para além dos aspetos culturais, recursos de suporte, entre outros (ASHA, nd; Manning, nd).

Relativamente à idade, importa salientar a existência de estudos que demonstram a possibilidade de intervenção dirigida a crianças a partir dos 4 anos e em idade escolar, sendo que em idades mais precoces e/ou em crianças com necessidades complexas de comunicação a investigação orienta para que a teleprática seja direcionada sobretudo para o treino e coaching dos pais/cuidadores (Coufal et al., 2018; J. Rudolph & S. Rudolph, 2015; Manning, nd; Wales et al., 2017; Snodgrass et al., 2017; Sutherland et al., 2018).

A prestação de serviços de teleprática exige por parte do terapeuta um aprofundamento de conhecimentos e competências para realizar as adaptações necessárias nos processos de avaliação e intervenção, adequadas à tecnologia e que considerem as características de cada criança e cada família (ASHA, nd; Molini-Avejonas et al., 2015; Snodgrass et al., 2017).

Os procedimentos e materiais podem necessitar de modificações/adaptações. Para além dos materiais tradicionais, o recurso a powerpoints e materiais interactivos (sites, aplicativos, jogos, vídeos,…) serão importantes para manter o envolvimento e interesse das crianças nas atividades. De igual modo, será também útil o recurso ao compartilhamento da webcam, ao compartilhamento de tela e dos recursos interativos, que a maioria das plataformas de videoconferência possuem (pode incluir opções para desenhar na tela e compartilhar o controle do teclado e do rato com a criança, permitindo que ela interaja diretamente com as atividades apresentadas no ecrã) (ASHA, 2020; Manning, nd).

Por último, salienta-se que no processo de avaliação, a investigação parece identificar o formato da mesma, a capacidade e experiência do terapeuta, bem como a idade e características do cliente, como aspetos que poderão influenciar de algum modo os resultados (Manning, nd). Mais concretamente nas PEA, os estudos existentes salvaguardam que as avaliações de diagnóstico por esta via ainda não podem ser consideradas uma prática estabelecida (Sutherland et al., 2018).

A prestação de serviços através da Teleprática tem mostrado ter um grande potencial na avaliação e intervenção em diversas condições importantes no âmbito da atuação do Terapeuta da Fala na Comunicação e Linguagem na Criança, reconhecendo-se a necessidade de mais investigação para sustentar as práticas a adotar (Boisvert et al., 2010; J. Rudolph & S. Rudolph, 2015; Molini-Avejonas et al., 2015; Neely et al., 2017; Snodgrass et al., 2017; Sutherland et al., 2018).

Evidência científica/Referências

  • American Speech-Language-Hearing Association (nd). Telepractice: Key Issues. Disponível em: https://www.asha.org/PRPSpecificTopic.aspx?folderid=8589934956&section=Key_Issues
  • American Speech-Language-Hearing Association (2020). Telepractice: 5 Steps to get started in telepractice. Disponível em: https://leader.pubs.asha.org/do/10.1044/5-few-steps-to-get-started-in-telepractice/full/
  • Boisvert, M., Lang, R., Andrianopoulos, M., & Boscardin, M.L. (2010). Telepractice in the assessment and treatment of individuals with autism spectrum disorders: A systematic review. Developmental Neurorehabilitation, 13, 423–432.
  • Cason, J., Behl, D., & Ringwalt, S. (2012). Overview of states’ use of telehealth for the delivery of early intervention (IDEA Part C) services. International Journal of Telerehabilitation, 4(2), 39–46.
  • Coufal, K., Parham, D., Jakubowitz, M., Howell, C. & Reyes, J (2018). Traditional Service Delivery and Telepractice for Speech Sound Production Using a Functional Outcome Measure. American Journal of Speech-Language Pathology, 27, 82–90.
  • Crutchley, S., & Campbell, M. (2010). Telespeech therapy pilot project: Stakeholder satisfaction. International Journal of Telerehabilitation, 2, 23–30.
  • Jarvis-Selinger, S., Chan, E., Payne, R., Plohman, K., & Ho, K. (2008). Clinical telehealth across the disciplines: Lessons learned. Telemedicine and e-Health, 14, 720–725.
  • Keck, C. S., & Doarn, C. R. (2014). Telehealth technology applications in speech-language pathology. Telemedicine Journal and e-Health, 20, 653–659.
  • Manning, D. (nd). Best Practices in Teletherapy. Disponível em: https://chatwithus.org/wp-content/uploads/2019/12/Best-Practices-in-Teletherapy-.pdf
  • McDuffie, A., Oakes, A., Machalicek, W., Ma, M., Bullard, L., Nelson, S. & Abbeduto, L. (2016). Early Language Intervention for Fragile X Syndrome. American Journal of Speech-Language Pathology, 25, 46–66.
  • Molini-Avejonas, D., Rondon-Melo, S., Amato, C. & Samelli, A. (2015). A systematic review of the use of telehealth in speech, language and hearing sciences. Journal of Telemedicine and Telecare, 0(0), 1–21.
  • Neely, L., Rispoli, M., Gerow, S., Hong E.R. & Hagan-Burke, S. (2017). Fidelity Outcomes for Autism-Focused Interventionists Coached via Telepractice: A Systematic Literature Review. Journal of Developmental & Physical Disabilities, 29(6), 849-874.
  • Rudolph, J. M., & Rudolph, S. (2015). Telepractice vs. On-Site Treatment: Are Outcomes Equivalent for School-Age Children. EBP Briefs, 10(2), 1-15.
  • Snodgrass, M. R., Chung, M. Y., Biller, M. F, Appel, K. E., Meadan, H. & Halle, J W. (2017). Telepractice in Speech–Language Therapy: The Use of Online Technologies for Parent Training and Coaching. Communication Disorders Quarterly, 38(4), 242-254.
  • Sutherland, R., Trembath, D. & Roberts J. (2018): Telehealth and autism: A systematic search and review of the literature. International Journal of Speech-Language Pathology, 20(3), 324-336.
  • Wales, D., Skinner, L. & Hayman, M. (2017). The Efficacy of Telehealth-Selivered Speech and Language Intervention for Primary School-age Children: A Systematic Review. International Journal of Telerehabilitation, 9(1), 55-70.   
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A EQUIPA: DEPARTAMENTO DE LINGUAGEM NA CRIANÇA

Fátima Maia
Coordenador
M. João Ximenes
Vice-Coordenador
Alexandrina Martins
Membro
Marisa Lousada
Membro
Telma Pereira
Membro

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